quinta-feira, 31 de julho de 2008

A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, Herrigel, Eugen




Certo dia, no momento em que o tiro partiu, o mestre exclamou: “Aí está! Incline-se!” Em seguida, como eu não podia, infelizmente, deixar de olhar para o alvo, constatei que a flecha apenas lhe roçara a borda. “Esse foi um tiro verdadeiro”, afirmou o mestre, “e é assim que se deve começar. Mas por hoje basta, porque, se continuamos, o senhor se esmeraria demais no segundo tiro, pondo a perder esse bom começo.”
Dentre os inúmeros tiros que eu dava, muitos fracassavam, mas alguns atingiam o alvo. Se eu desse o menor sinal de orgulho, o mestre me repreendia com inusitada rudeza: “O que se passa com o senhor? Já sabe que não se deve envergonhar pelos tiros errados. Da mesma maneira, não deve felicitar-se pelos que se realizam plenamente. O senhor precisa libertar-se desse flutuar entre o prazer e o desprazer. Precisa aprender a sobrepor-se a ele com uma descontraída imparcialidade, alegrando-se como se outra pessoa tivesse feito aqueles disparos. Isso também tem que ser praticado incansavelmente, pois o senhor não imagina a importância que tem.”
Durante aquele período, cursei a escola mais dura da minha vida, e se ainda me era difícil adaptar-me, compreendia, com o passar do tempo, o quanto devia ao mestre. Suas lições aniquilaram em mim os últimos vestígios da necessidade de ocupar-me comigo mesmo e com as flutuações do meu estado de espírito.
“Compreende agora”, perguntou-me o mestre certo dia, depois de eu haver dado um tiro especialmente feliz, “o que quer dizer algo dispara, algo acerta?”
“Temo”, respondi-lhe, “que já não compreendo nada. Até o mais simples me parece o mais confuso. Sou eu quem estíra o arco ou é o arco que me leva ao estado de máxima tensão? Sou eu quem acerta no alvo ou é o alvo que acerta em mim? O algo é espiritual, visto com os olhos do corpo ou é corporal, visto com os do espírito? São as duas coisas ao mesmo tempo ou nenhuma? Todas essas coisas, o arco, a flecha, o alvo e eu estamos enredados de tal maneira que não consigo separá-las. E até o desejo de fazê-lo desapareceu. Porque, quando seguro o arco e disparo, tudo fica tão claro, tão unívoco, tão ridiculamente simples...”
“Nesse exato momento”, interrompeu-me o mestre, “a corda do arco acaba de atravessá-lo por inteiro.”

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